quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Origem do Cavalo no Brasil


Quando em 1493 realizou sua segunda viagem à ilha de São Domingos, Cristóvão Colombo foi o responsável pela introdução do cavalo na América.
Esposa de Martin Afonso de Souza, Ana Pimentel, foi quem trouxe o primeiro animal para a capitania de São Vicente no ano de 1534.
Após esse período, os registros de novas introduções de animal no país foram feitos em 1808, quando D.João VI veio para o Brasil e trouxe sua criação de cavalos da raça Alter Real, contribuindo com um importante papel no desenvolvimento das raças Mangalarga e Campolina, que estão entre os melhores animais brasileiros de sela.
As raças tipicamente nacionais desenvolvidas desde a época do Império são o Mangalarga, o Crioulo Brasileiro e o Campolino.
Todas as raças de cavalos são originadas da espécie Equus Caballus, porém existem mais de 100 raças de cavalos diferentes em todo o mundo.  

Texto Editado: Máira Daniela da Costa
Fonte: Revista Cavalos de Raça - Ano I nº 1

O Gaúcho e sua (nossa) origem


     Por volta de 1580, os cavalos abandonados na região do Prata em 1536 tinham se multiplicado aos milhares. Tanto que, em 1600, não podiam mais ser mais contados em suas gigantescas manadas. Os Pampas do Rio Grande, Uruguai e Argentina estavam povoados de cavalos chimarrões (cimarrones) e o povo que vivia nessa região, unida pela semelhança ambiental, se tornou um povo cavaleiro.

    A posterior introdução do gado chimarrão, que também tornou-se abundante e formou rebanhos de 40 milhões de cabeças (somando Rio Grande, Uruguai e Argentina), sedimenta esta cultura. A partir dali havia gado solto e sem dono em abundância para ser caçado com laço por aqueles que não queriam outra vida, com liberdade tão incomparável. O gado chimarrão era a base da alimentação e origem de produtos que seriam comercializados e/ou contrabandeados (na época, uma rebeldia contra os pesados impostos).

    Mas na origem da formação do gaúcho devem ser lembrados os índios pampeanos (nossos charruas e minuanos), que logo se adaptaram magnificamente ao cavalo (por volta de 1607). Sua miscigenação com o europeu fundiu as culturas ibérica e americana, e gerou os mozos perdidos (homens que optaram pela vida no pampa), sendo seu primeiro registro em 1617, já com chiripá, poncho e bota de garrão de potro (tendo esta indumentária uma evolução gradual e natural até por volta de 1865, com a substituição do chiripá pela bombacha, se estabilizando relativamente até agora).

    Índios, mozos perdidos, vagabundos do campo (1642), changadores (1700) e gaudérios foram os antecessores do gaúcho, de origem e comportamento bem semelhantes. Mas, afinal, em que momento começa a existir o gaúcho? É impossível passar a faca sobre este variado mosaico e separar as partes que em muitos momentos se sobrepõem. A palavra "gaúcho", entretanto, só aparece em crônicas de viajantes na América do Sul por volta de 1770. Demonstra uma nova adaptação, ou melhor, a culminação dos tipos anteriores, presente simultaneamente no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.

    O viajante francês Dreys, em observações entre 1817 e 1825 sobre o Rio Grande, assegura:
"Todos os exercícios de manejo e picaria dos mestres de equitação da Europa são familiares ao gaúcho, e alguns dos exercícios mais difíceis são mesmo entre eles divertimentos de crianças."

    Os hábitos dos antigos gaúchos, sejam eles alimentares, de vestuário, aperos e arreios dos cavalos, forma de domar cavalos, de laçar ou bolear, maneira figurada de falar, palavras utilizadas e música, entre outros, passam a ser assimilados pelas novas ondas de colonização açoriana (1752) que o continente de São Pedro do Rio Grande do Sul sofreu. A cultura de fora se rende à cultura local e adapta-se, transforma-se ou desaparece.

    Neste período, muitos gaúchos eram vaqueanos (conhecem a região nos seus mais mínimos detalhes) e guiavam viajantes e exércitos pelo pampa. Outros tocavam infindáveis tropas de gado por léguas sem fim. Havia ainda os carreteiros, que transportavam produtos cortando a região de todas as maneiras. Os antigos e primeiros gaúchos nômades (injustamente chamados de ladrões no período do gado cimarrão, época de enfrentamento de forças pela posse do gado sem dono) trabalhavam sazonalmente em fazendas (eram pouco exigentes e pareciam se divertir no trabalho mais duro - eram exímios laçadores, boleadores, carneadores e artesões de produtosde couro necessários a montaria) e influenciavam de forma espantosa os filhos dos colonos da campanha ou povoados por onde passavam.

Os gaúchos influenciaram o comportamento de toda a região. Sessenta anos após a chegada dos açorianos, Saint-Hilaire anotou em seu diário que seus descendentes não queriam outro modo de vida, muitas vezes contrariando a vontade de seus pais. Todos queriam ser como os gaúchos. Nota-se traços deste fato mesmo na rígida colônia alemã já em 1858, anotado por Avé-Lallemant. Para ele, "esses alemães demonstram nos campo traços de gaucharia, que se destaca no manejo do laço, condução da tropa e pelo modo de montar e destaca alemães aparecerem montados a cavalo, com elegantes ponchos listrados". Quando o inglês Luccock esteve no Rio Grande em 1808, a região estava completamente acriollada (ou agauchada): todos andavam a cavalo na região, independente de serem índios, soldados, escravos, peões, estancieiros, comerciantes, viajantes ou crianças. Logo todos se transformariam num povo único: o gaúcho.

    Em "Viagem ao Rio Grande do Sul", documento escrito em 1845 pelo belga A. Baguet, o autor fala de crianças com poucos anos cavalgando sem sela, a toda velocidade, descreve a forma como montam colocando o pé descalço no joelho do cavalo, a provação dos ventos da pradaria, a lealdade nas guerras, o costume da hospitalidade mesmo entre os mais pobres, a confiança humana nos vaqueanos, os principais costumes (o mate e suas propriedades e o churrasco), a exibição dos arreios com prata (feita até pelos vaqueanos mais simples), o impacto da imagem do pampa e a habilidade do gaúcho nas boleadeiras e no cavalo. Menciona à exaustão, com preciosas descrições, a habilidade do gaúcho com o cavalo, o qual considera o melhor cavaleiro do mundo junto aos índios.

Vejamos algumas observações de Dreys (1817-1825) sobre os rio-grandenses:
    " Independente dessas armas comuns aos militares, o rio-grandense traz consigo duas armas auxiliares peculiares, que somente os homens desta parte da América sabem manejar com habilidade: queremos falar do laço e das boleadeiras. Tem o rio-grandense contraído uma espécie de aliança com o cavalo, em virtude da qual é feito auxiliar indispensável da vida do homem, o cooperador assíduo de quase todos os seus movimentos. O rio-grandense folga em percorrer suas imensas planícies a cavalo. (...) A predileção que manifesta por seu cavalo não se contenta a admiti-lo como companheiro inseparável; ele se ocupa também em adorná-lo (...).

    Nas guerrilhas do Rio Grande empregadas contra o estrangeiro, adquiriram uma reputação de firmeza e de coragem que o inimigo não desconheceu. A coragem do rio-grandense é fria e perseverante(...).
    "Fazendo um parênteses, é bom lembrar que os gaúchos (considerando além do Rio Grande, os gaúchos do Uruguai e Argentina) foram a base utilizada na guerra em seus respectivos países, os quais lhes devem seja a independência, seja a manutenção das fronteiras - por exemplo: sem os gaúchos, basicamente rio-grandenses, Rosas, na Argentina, não teria caído). No Brasil o caso é exemplar: quem manteve as fronteiras ou lutou nas guerras foram os homens deste Estado, mesmo que os livros de história não lembrem disso.

    Sobre a honra dos rio-grandenses, Dreys afirmou que "Sua palavra é inviolável".
       Vários comentaram sobre a hospitalidade do rio-grandense/gaúcho, entre os quais Arsène Isabelle (1833):
    "A hospitalidade é ainda, entre a maioria, uma virtude que se pratica com generosidade. "

    No seu comportamento, o gaúcho antigo e o acriollado tinham respeito para quem os tratavam de forma gentil, tinham uma base ética (mesmo que rudimentar), eram impetuosos e peleadores (quando necessário), tinham certa atração pela guerra (desde que seja a cavalo - jamais à pé), atração pela montaria (que se manifesta em muitos enfeites, até de prata) e tradição, seja na indumentária, seja na forma de arrear os cavalos.

    A maneira de falar do gaúcho antigo chegou de forma impressionante até nossos dias. Mesmo nos maiores centros urbanos do Estado, dezenas de palavras oriundas da lida campeira continuam sendo usadas com significado paralelo ao original (apesar de que a quase totalidade das pessoas que as utilizam desconheçam esta origem).

    Também chegaram até nossos dias a música, os payadores e a poesia gaúcha (culta sim, mas derivada do canto homens do campo do passado).    Simões Lopes Neto no seu Cancioneiro Guasca, antologia da música popular gaúcha do passado, mostra a atenção que os habitantes do interior tinham pelo gaúcho. Muitas pessoas do interior, ainda hoje ligadas diretamente ou indiretamente ao campo, compõem músicas e fazem poesias e trovas a maneira (ou lembrando a vida) do gaúcho. Centenas de músicos de qualidade compõem letras e músicas campeiras (nem sempre com apoio da mídia local). Festas que lembram as habilidades do gaúcho (doma e laço, principalmente) são atração sempre que acontecem, mesmo nas zonas mais metropolitanas. Pesquisadores como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa conseguiram recuperar muito da dança gaúcha.

Chegou também uma espécie de reminiscência da campanha e um sentimento de épico. Venera-se a planície. A base do comportamento do gaúcho (seu ethos) de forma geral chegou até os dias de hoje e influencia. Isto é um fato, pelo menos até 20 ou 30 anos atrás. Entretanto, a massificação proporcionada pela televisão e globalização (além de um antigo preconceito local à influencia gaúcha) ameaçam esta antiga homogeneidade de povo. O "ser gaúcho", ou seja, a manutenção de características mínimas de identificação, tais como gosto pela música nativa, pela literatura regional ou manutenção do comportamental básico (combatividade era uma das características) passa a ser visto por intelectuais (rio-grandenses, pasmem!) como "negativa" e atrasada. Estes intelectuais, com marcada visão etnocêntrica, não consideram que expressam seu modo urbano (ou globalizado?) de ver. Contraditoriamente, estes mesmos intelectuais concordam que devem ser respeitada as culturas regionais de outros locais.

    No mundo inteiro, incluindo sobremaneira a Europa e os Estados Unidos, festas regionais reforçam suas certezas sobre suas origens, como comportar-se frente às adversidades e planejar o futuro. Saberem quem são. Este é o sentido de conhecer o passado, afinal "É tão grave esquecer-se no passado como esquecer o passado. Nos dois casos desaparece a possibilidade de história".

Autor: Evaldo Muñoz Braz - e-mail: embraz.voy@terra.com.br

Texto para Trabalho do Projeto Articulação.


Projeto Articulação Ensino Fundamental 2011

1ª PARTE - LEITURA
Leia o texto com atenção e responda às perguntas.


O último brasileiro
A 50 metros do Uruguai, escultor enfrenta baixa temperatura, mas prefere viver "numa solidão povoada de imagens".

O quintal da casa onde vive o escultor Hamilton Coelho estende-se até as margens do arroio Chuí, riacho conhecido da comunidade científica por seus depósitos de fósseis pré-históricos. Saindo pelo portão de madeira e caminhando menos de 100 passos para a esquerda, este gaúcho de 43 anos chega, a pé, a outro país. Há cinco anos vivendo no vilarejo de Barra do Chuí (RS), ponto mais meridional do território nacional, Hamilton é o último morador do Brasil. Depois dele, começa o Uruguai.
Os fundos do terreno vão até o oceano Atlântico, mar aberto. Ao norte, espalha-se o pampa gaúcho. Quando chegou ao local, numa quinta-feira de 1994, Hamilton lembra que o vento gélido zumbia nas orelhas. Achou que o lugar era muito especial e resolveu ficar.
Mas o impulso maior que o levou a fixar nova residência foi o de permanecer mais próximo da matéria-prima das suas esculturas. Artista conhecido no Rio Grande do Sul por suas enormes instalações com fragmentos de ossos de baleia, Hamilton agora não tem tantas dificuldades para encontrar pedaços de mandíbulas, crânio ou vértebras desses gigantescos mamíferos.
– Gosto de ir a São Paulo, de vez em quando, ver uma Bienal de Artes, assistir a um show ou a uma peça de teatro. Mas não moraria lá. Aqui tenho peixe à vontade, é só jogar a rede. Vivo nessa solidão povoada de imagens.
Barba cerrada, mãos grossas, calejadas, carregando uma enorme vértebra de baleia pela praia, Hamilton parece um personagem perdido no tempo. Mas, apesar de encravado no extremo sul do país, ele não tem nada de ermitão. Ao lado do fogão a lenha, possui telefone rural e uma tevê, quase nunca ligada. Nascido em Santa Vitória do Palmar, filho de imigrantes italianos, tradicionais artesãos, Hamilton graduou-se em Escultura e Gravura na Universidade Federal de Pelotas e especializou-se na matéria-prima oferecida pela própria natureza: além dos fragmentos de ossos, usa restos de naufrágios. Boa parte da madeira utilizada no ateliê-residência veio do casco do navio uruguaio Dona Yayá, que naufragou na costa gaúcha.
– Sou um reciclador de sucatas. Além disso, meu trabalho tem um sentido de protesto ecológico.
Extremamente fria e inóspita durante o inverno, a região se transforma num frequentadíssimo balneário nas temporadas de verão. Centenas de milhares de uruguaios atravessam a ponte internacional para somarem-se aos brasileiros que vão se banhar nas águas do Atlântico. Chegam atraídos também pela beleza dos pampas e pela Estação Ecológica do Taim, que abriga um sem-número de aves, mamíferos e répteis. O movimento intenso se traduz em transtorno para o pacato Hamilton Coelho. "Quando canso do Brasil, simplesmente mudo de país por algumas horas. Para mim, é fácil: basta atravessar a ponte sobre o arroio Chuí", brinca.

http://www.istoe.com.br/reportagens/33113_O+ULTIMO+BRASILEIRO


terça-feira, 28 de agosto de 2012

CHARLA DE MATEADOR Autor Jayme Caetano Braun

Ah! Mate amargo bendito
que tenteio reverente,
o passado e o presente
passam    ente mim, contrito,
aqui matiando solito
junto do meu cusco baio,
quero sair mas não saio,
do peso desta agonia,
como Confúcio diria:
o mundo velho é um balaio...

E, dentro dele, eu me vejo,
no barro de uma mangueira,
quando apojava tambeira,
tirando leite pra queijo
e de falquejo em falquejo,
repisando trajetória,
trago vivos na memória
os arrepios que sentia,
quando ouvia e aprendia
os “causos” da nossa história.

Ah, Centauros que riscaram
as marcas da nossa linha,
desta pátria que era minha,
e os ancestrais nos legaram
e que agora hipotecaram,
por má-fé ou falta de senso!
olho o tempo, quieto, imenso,
tão presente e sempre antigo,
e passo a remoer comigo,
tudo o que sinto e que penso!

Meu cusco de patas juntas,
debruçado no borralho,
como eu, joga baralho,
com recordações defuntas,
como a fazer-me perguntas,
silencioso, de mãos postas,
eu não posso dar-lhe as costas,
a um amigo, não se mente,
fico mateando, somente,
porque não tenho resposta,...

E aqui neste lusco-fusco,
de silêncio e de fumaça,
me enternece e me congraça,
a ternura do meu cusco,
e até compara-lo, busco,
no fundo do pensamento,
com as máguas e o sofrimento
dos humanos que se ofendem,
se matam, se desentendem,
por falta de sentimento.

E chego a entender, em parte,
a religião que comungo,
um pago, um cusco, um matungo,
uma china, um estandarte,
e por que o Rio Grande é parte
do Brasil, no todo imenso,
eu sou brasileiro, penso,
e, ao mesmo tempo, não sou,
ainda ninguém me explicou:
o pingo, a bandeira, o lenço...

http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/charlademateador.htm

Arroz de Carreteiro Jayme Caetano Braum

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.


http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/arrozdecarreteiro.htm

Amargo Jayme Caetano Braum

Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma china!

A velha bomba prateada
Que atrás do cerro desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao desleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!

Velho mate-chimarrão
As vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!

Nessa lagoa parada
Cheia de paus e de espuma
Vão cruzando uma, por uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu ronco anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!

Sangue verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo aberto
É algum mistério por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!

Gaudéria essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um, pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!! 


http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/amargo.htm

MATEANDO Glaucus Saraiva

Quando a saudade maleva
Guasqueia forte o meu lombo
De supetão dou-lhe o tombo
E espanto a guecha algariada,
Numa charlita animada
Com a boca de meu porongo.

 Muitas vezes, tironeando,
Busco a sombra do galpão
Vou remechendo um tição
Acordo as brasas soprando,
E a chama vai levantando
Do "pai-de-fogo" no chão.

Chego a brasa no crioulo,
Depois encosto a chaleira,
Vou direito à prateleira
E com carinho destampo
A lata, cheiro de campo,
Da erva boa da Palmeira.

Palmeio o velho porongo,
Derramo a erva com jeito,
Encosto a cuia no peito,
Batendo a erva pra um lado,
Com os dedos enconchados
Formo um topete bem feito

Com um pouquinho de água morna
Que despejo com cuidado,
Tenho o amargo ajeitado
Que ponho a um canto, pra inchar
Espero a água esquentar
Pitando um baio sovado.

A pava chiou no fogo,
encho a cuia que promete
A espuma se arremete
Vem pra cima borbulhando
E acariciante, beijando
Engrinaldeia o topete.

Agarro a bomba de prata
Tapo o bocal com o dedão,
Calço o bojo no chão
Da cuia e vou destampando
Um pouco do chimarrão.


Derramo outro tanto d’água,
O que ainda aumenta o calor
E o mate confortador
Vou sorvendo em trago largo,
Pois me saiu um amargo
Despachado e roncador
  
Encho outra vez o porongo
Vou tragueando lentamente
E escuto nitidamente,
Como um chamado ancestral,
Um murmúrio paternal
Falando na seiva quente:

"Meu filho, levanta a testa,
Porque a vida é um desafio
Se o teu presente é sombrio
E já sentes, mermando,
Teu coração balanceando
Dentro do peito vazio.

Se amores e ideais alçadas
Muito te custa esquecer
E se estás a envelhecer
A mocidade chorando
Não esquece que, lamentando
Jamais o fará volver.

Se pelecharam teus sonhos
Amananciados em criança;
Se assististe à matança
De tua última ilusão,
Nota bem o chimarrão
Tem o verde da esperança.