terça-feira, 28 de agosto de 2012

CHARLA DE MATEADOR Autor Jayme Caetano Braun

Ah! Mate amargo bendito
que tenteio reverente,
o passado e o presente
passam    ente mim, contrito,
aqui matiando solito
junto do meu cusco baio,
quero sair mas não saio,
do peso desta agonia,
como Confúcio diria:
o mundo velho é um balaio...

E, dentro dele, eu me vejo,
no barro de uma mangueira,
quando apojava tambeira,
tirando leite pra queijo
e de falquejo em falquejo,
repisando trajetória,
trago vivos na memória
os arrepios que sentia,
quando ouvia e aprendia
os “causos” da nossa história.

Ah, Centauros que riscaram
as marcas da nossa linha,
desta pátria que era minha,
e os ancestrais nos legaram
e que agora hipotecaram,
por má-fé ou falta de senso!
olho o tempo, quieto, imenso,
tão presente e sempre antigo,
e passo a remoer comigo,
tudo o que sinto e que penso!

Meu cusco de patas juntas,
debruçado no borralho,
como eu, joga baralho,
com recordações defuntas,
como a fazer-me perguntas,
silencioso, de mãos postas,
eu não posso dar-lhe as costas,
a um amigo, não se mente,
fico mateando, somente,
porque não tenho resposta,...

E aqui neste lusco-fusco,
de silêncio e de fumaça,
me enternece e me congraça,
a ternura do meu cusco,
e até compara-lo, busco,
no fundo do pensamento,
com as máguas e o sofrimento
dos humanos que se ofendem,
se matam, se desentendem,
por falta de sentimento.

E chego a entender, em parte,
a religião que comungo,
um pago, um cusco, um matungo,
uma china, um estandarte,
e por que o Rio Grande é parte
do Brasil, no todo imenso,
eu sou brasileiro, penso,
e, ao mesmo tempo, não sou,
ainda ninguém me explicou:
o pingo, a bandeira, o lenço...

http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/charlademateador.htm

Arroz de Carreteiro Jayme Caetano Braum

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo.


http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/arrozdecarreteiro.htm

Amargo Jayme Caetano Braum

Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma china!

A velha bomba prateada
Que atrás do cerro desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao desleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!

Velho mate-chimarrão
As vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!

Nessa lagoa parada
Cheia de paus e de espuma
Vão cruzando uma, por uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu ronco anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!

Sangue verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo aberto
É algum mistério por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!

Gaudéria essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um, pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!! 


http://www.juntandorimas.com/poesias/jayme/amargo.htm

MATEANDO Glaucus Saraiva

Quando a saudade maleva
Guasqueia forte o meu lombo
De supetão dou-lhe o tombo
E espanto a guecha algariada,
Numa charlita animada
Com a boca de meu porongo.

 Muitas vezes, tironeando,
Busco a sombra do galpão
Vou remechendo um tição
Acordo as brasas soprando,
E a chama vai levantando
Do "pai-de-fogo" no chão.

Chego a brasa no crioulo,
Depois encosto a chaleira,
Vou direito à prateleira
E com carinho destampo
A lata, cheiro de campo,
Da erva boa da Palmeira.

Palmeio o velho porongo,
Derramo a erva com jeito,
Encosto a cuia no peito,
Batendo a erva pra um lado,
Com os dedos enconchados
Formo um topete bem feito

Com um pouquinho de água morna
Que despejo com cuidado,
Tenho o amargo ajeitado
Que ponho a um canto, pra inchar
Espero a água esquentar
Pitando um baio sovado.

A pava chiou no fogo,
encho a cuia que promete
A espuma se arremete
Vem pra cima borbulhando
E acariciante, beijando
Engrinaldeia o topete.

Agarro a bomba de prata
Tapo o bocal com o dedão,
Calço o bojo no chão
Da cuia e vou destampando
Um pouco do chimarrão.


Derramo outro tanto d’água,
O que ainda aumenta o calor
E o mate confortador
Vou sorvendo em trago largo,
Pois me saiu um amargo
Despachado e roncador
  
Encho outra vez o porongo
Vou tragueando lentamente
E escuto nitidamente,
Como um chamado ancestral,
Um murmúrio paternal
Falando na seiva quente:

"Meu filho, levanta a testa,
Porque a vida é um desafio
Se o teu presente é sombrio
E já sentes, mermando,
Teu coração balanceando
Dentro do peito vazio.

Se amores e ideais alçadas
Muito te custa esquecer
E se estás a envelhecer
A mocidade chorando
Não esquece que, lamentando
Jamais o fará volver.

Se pelecharam teus sonhos
Amananciados em criança;
Se assististe à matança
De tua última ilusão,
Nota bem o chimarrão
Tem o verde da esperança.

FILHO DO PAMPA Glaucus Saraiva

Nasci num berço de capim rasteiro,
pastorejado pelo avô charrua!
Abri os ulmões ao sopro do pampeiro
que acariciava as minhas carnes nuas...

Mamei no seio verde da oxilha
em meu primeiro beijo filial,
acalentado à voz de farroupilhas,
embalado no lombo de um bagual.

E os primeiros sons deste meu peito
foi minha mãe - amor de mãe perfeito,
que ensinou, fitando o céu azul:

"Meu filho...Padre-nosso, Ave-Maria"
- e com a voz embargada repetia:
"Ave-Maria...e Rio Grande do Sul!!!"

http://www.juntandorimas.com/poesias/glaucus/filhodopampa.htm

CHIMARRÃO Glaucus Saraiva

Amargo doce que sorvo
num beijo em lábios de prata!
Tens o perfume da mata
molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno
Que passa de mão em mão
traduz no meu chimarrão
em sua simplicidade,
a velha hospitalidade
da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
nesse teu sabor selvagem,
a mística beberagem do
feiticeiro charrua
o perfil da lança
nua encravada na coxilha,
apontando, firme, a trilha
por onde rolou a história;
empoeirada de glória
da Tradição Farroupilha.

Em teus últimos arrancos,
no ronco do teu findar,
ouço um potro corcovear
na imensidão do pampa!
E minha mente se estampa,
reboando dos confins,
a voz febril dos clarins
repenicando: Avançar...
Então me fico a pensar,
apertando os lábios assim,
que o amargo está no fim,
é o sangue de 35
que volta verde pra mim.

Poesia USTED SIEMPRE SERÁS MI SOL AL REVÉS de ELTON SALDANHA

NA JANELA DO RECUERDO UMA MUTUCA REVOA,
UMA CANTIGA CAÇOA QUANDO BRINCA O SOL NA FLOR,
E NO ENTANTO ESSA DOR, QUE NÃO VÊ O TEMPO PASSAR,
ARRASTA MANDURUVÁ NA MINHA HISTÓRIA DE AMOR.
REMANSEAVA "EL VINO" COM A PONTA DA CHAIRA. NA NEGRA CAMBONA
E A ALMA DE PEOA, DA MOÇA DAS CASAS,
QUEIMAVA NAS BRASAS DA VOZ DO PAIANO.

USTED SIEMPRE SERÁS MI SOL AL REVÉS
REVERBEROU A MULATA, E A FRASE FICOU TISNADA
NAQUELES LADRILHOS CLAROS, NAS AURAS DUMA POESIA.
ELA, UMA PEOA DAS CASAS, ELE E SEU PALA COM ASAS,
MEU DEUS, QUEM ELE SERIA?

ALI NÃO TINHA CRUZO, NÃO TINHA VAU.
ERA PENHASCO E PERAU, ESCARPAS QUE ERAM UM ABUSO.
MEIO GRINGO, MEIO LUZO, O PINGO, GÊMEO DE DONO,
DESDE ENTÃO PERDERA O SONO, NO PALAVREIO DO INTRUSO.

O CORREAME SURRADO, A PRATARIA POLIDA,
A CARONA PUÍDA, PELEGUITO ENCAROÇADO.
UM DOZE BRAÇAS CHUMBADO E UM CORAÇÃO NA PEITEIRA.
E AQUELA FALA ESTRANGEIRA DE UM AMOR CONTRABANDEADO
NA MOLDURA DO POENTE.

QUANDO MIGUAVA O VERÃO CORTANDO O CAPÃO,
SE INVIEZANDO AO CORREDOR. PASSE PRA DIANTE, SENHOR,
DISSE UM, QUE LHE DANDO TRELA, TINHA UMA FLOR NA LAPELA,
MORENA DA COR DO AMOR.

VIERAM MUGIDOS DA VÁRZEA E A TARDE SE RECOLHEU,
A NOITE POLEANGA ERA UM BREU,
NO CÉU NENHUMA ESTRINHA,
SÓ UMA BRASA NA COZINHA E UM FOGO LÁ NO GALPÃO,
E UM INCÊNDIO DE PAIXÃO NO CORAÇÃO DA PRETINHA.

PORQUE TODO TEATINO TEM TINO PRAS CANTORIAS,
ERA PONTEIO E POESIA E AS ALMAS NA VOZ TROCADA,
NA PENUMBRA DA RAMADA FANTASMAS PEDEM GUARIDA.
COMO A DIZER QUE ESTA VIDA PODE SER TUDO OU PODE  SER NADA.

DESDE ENTÃO A MOÇA PEOA VAREIA DE OLHAR PARADO,
TRAZ UM NOVELO ENCARNADO PRA BORDAR NO BASTIDOR.
E, SÓ CORAÇÃO E FLOR, E ALMA DE CARPIDEIRA,
NUM AMOR DE VIDA INTEIRA PRA QUEM NUNCA TEVE AMOR.

QUANDO UM MATUNGO SE PLANCHA, QUANDO UM MALEVA SE NEGA,
NUMA TORMENTA NAVEGA O DESTINO DAS PESSOAS.
A AVE AGOURENTA ENTOA, QUANDO O NOSSO SONHO QUEBRA,
SE ENDURECE, VIRA PEDRA, AQUELA LEMBRANÇA A TOA.

DIZ QUE POR MAULA E ANDEJO PERDEU O MAPA DO PAGO,
POR PATACUADA E POR POR TRAGO, NUM RESCALDO POR PELEIA,
LHE EMBRETARAM NA CADEIA POR UMA COIMA DE TAVA,
MAS NÃO PRENDERAM AS PALAVRAS, QUE AINDA ESCUTO VOLTA E MEIA.

O TAL PAISANO CASTILHA, COM SEU PINGO E SUA GUITARRA,
VEIO JUNTO COM AS CIGARRAS SE FOI JUNTO COM O VERÃO.
LATEJA NO CORAÇÃO UMA FRASE DE VIÉS,
QUE ESSE TAL SOL AL REVÉS
É A LUZ DA MINHA SOLIDÃO.


http://www.juntandorimas.com/poesias/elton/usted.htm